Tenha coragem e seja amável

Publicado por PMrjdslfjR em

Vamos lá: assisti “Cinderella“. E li vários textos falando sobre o filme, mais mal do que bem.

Eu não cresci amando loucamente as princesas Disney porque não tive tanto contato assim com esse universo. O primeiro filme da Disney que vi no cinema foi Tarzan, e fui ver alguns clássicos tipo Branca de Neve e A Pequena Sereia um pouco mais crescidinha.

Tenha coragem e seja amável

Algumas coisas me incomodavam desde sempre: por que o príncipe sempre tinha que vir ao resgate da mocinha? Por que as princesas são todas iguais? Por que elas nunca usavam calças, cáspita?

Cinderella nunca foi minha preferida. Primeiro foi a Bela, depois Mulan. Mas um filme que marcou muito minha pré-adolescência foi “Para Sempre Cinderella”, com a Drew Barrymore. Nossa, como eu amava aquele filme! Mas do original, eu achava fofa a história da Fada Madrinha, curtia a mágica da abóbora, do sapatinho de cristal e do vestido maravilhoso, mas alguma coisa não fazia sentido, pra mim. Por que raios Cinderella só fazia esperar? Não batia de frente com a madrasta e as irmãs? Por que tão passiva?

Mas senhoras e senhores, esse não será um texto apontando as falhas de Cinderella e seus estereótipos. Eles estão lá, acreditem. E sempre estiveram, não é novidade nenhuma. Tem aí uma porrada de textos falando das ‘falhas’, só dar um google.

Pela primeira vez, eu enxerguei o filme de outra maneira.

Cinderella vive em uma ambiente de abuso. Sua madrasta e suas irmãs postiças a humilham, a maltratam, a diminuem, querem que ela perca a autoestima, a autoconfiança e qualquer traço de amor próprio que ela possa ter. Por mais maravilhosa que a Cate Blanchett esteja nesse papel, não dá pra negar: que mulher horrível! Exala maldade, quer tirar qualquer resquício de felicidade das pessoas ao seu redor.

E é nesse ambiente que Ella, a personagem principal, vive. Aos poucos tudo vai sendo tirado dela. O quarto – pra ela, só o renegado e frio sótão –, a comida (pra ela, só os restos), a noção de família, de pertencimento, o direito de se sentar a mesa com a madrasta, a quem tem que chamar de Madame, e as irmãs, e por fim, o próprio nome. Um dia, suja de cinzas por ter dormido ao pé da lareira, por causa do frio no sótão, escuta das irmãs: “Cinder Wench, Dirty Ella, Cinderella!”, algo como “Cinzerella“, uma menção às cinzas sujas em seu rosto. E assim se torna Cinderella.

O que sobra dela? O que sua mãe e seu pai tanto a ensinaram: tenha coragem e seja amável. E é nisso que ela se agarra durante todo o período de abuso. Às únicas coisas que sua madrasta e as irmãs não conseguiram tirar dela.

Cinderella não está “esperando”. Ela está sobrevivendo. Eu sei o que é isso, eu vi isso muito de perto e sei o quão difícil é para alguém sair do ciclo de abuso. Quão difícil é juntar seus caquinhos, o pouco que resta do seu amor próprio e ter força e coragem para dar um pulo completamente no escuro. Juntar isso para voltar a acreditar que você não merece aquilo, que você merece muito mais amor, compaixão, carinho. Não é estar acomodada. É sobreviver.

Ser amável, continuar a ser “boazinha” não é ser tonta ou fraca. Na verdade é uma força tremenda quebrar o ciclo de abuso e não reproduzir o mesmo modelo ao que ela é exposta todos os dias. Ela seguindo o conselho da sua mãe é ela se esforçando pra não ser tragada pelo abuso, escolhendo não fazer parte daquilo.

Cinderella ficar com o príncipe no final não é que ele a salvou. Ela se viu, finalmente e ainda bem, merecedora de um amor sincero, verdadeiro e respeitoso. Amar e ser amada, quando se cresce num ambiente de abuso, ou quando se fica muito tempo em um relacionamento abusivo, não é fácil. É, na verdade, MUITO difícil voltar a enxergar que você tem direito àquilo. Que você merece aquilo. Que você não é apenas lixo.

Abuso destrói a pessoa por dentro. Acaba. Esmaga. É preciso sim ter coragem pra acabar com o ciclo de abuso. É preciso ser amável para não reproduzir tudo aquilo. É preciso muita força pra juntar aquilo que restou e reconstruir. Reconstruir sua autoestima, sua autoconfiança, sua noção de que você vale MUITO, que você merece TUDO, e que sim, o amor é pra você.

Eu vi de muito perto alguém que eu amo demais tirar forças do âmago para encerrar um ciclo horrível de abuso. E eu vi o tanto que foi dolorido, o tanto que ela estava destruída, mesmo depois daquilo ter acabado. O quanto foi difícil e o quanto de forças foi necessário pra que ela se enxergasse novamente como uma mulher digna do amor.

Ela não ficou esperando que um príncipe aparecesse em sua vida. Ela estava se reconstruindo. Ela estava se fortalecendo. Ela encontrou seu príncipe. E não foi ele que a salvou. Foi ela que se viu de novo merecedora, digna, poderosa, confiante, bela e pronta pra amar alguém de novo. Ela salvou a si mesma, sozinha. Assim como Cinderella. E encontrou um amor para dividir a nova vida, sem abuso, sem dor, sem humilhação. Isso não desmereceu toda a sua jornada. Ela lutou pra isso. Ela sobreviveu pra isso. Ter alguém ao seu lado pra dividir a vida e amar, e ser amada, é lindo. E todas nós merecemos isso.

Mil beijos, amo muito vocês <3

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