Eu li: “Americanah” – Aconselho a leitura

Publicado por PMrjdslfjR em

Já faz alguns dias que terminei de ler “Americanah“, da Chimamanda Ngozi Adichie, e todos os dias eu penso “deixa eu ler meu livro”, pra lembrar em seguida que acabou e que Ifemelu não faz mais parte da minha rotina, e sofro um tiquinho.

Porque foi assim que me senti durante toda a leitura: que Ifemelu estava na minha vida e eu na dela, compartilhando momentos e histórias, como se a gente morasse juntas. Pena que acabou 🙁

Eu li: “Americanah” – Aconselho a leitura

Vamos lá: “Americanah” conta a história de Ifemelu, uma garota nascida na Nigéria, e que se muda para os Estados Unidos quando está na faculdade, e depois de adulta e muitos anos morando lá, resolve voltar pra sua terra natal. Nada disso é spoiler e a gente fica sabendo bem no comecinho do livro, que não é escrito de maneira linear e tem vários flashbacks e idas e voltas nas histórias, mas não se preocupem, não é confuso, não fica difícil.

Além de Ifemelu, também acompanhamos um pedacinho da vida de Obinze, o namorado de Ifem quando ela ainda morava na Nigéria. Obinze é o primeiro amor, mas a vida acontece e… Acontece o que vocês imaginam que acontece.

Ifemelu e Obinze são dois personagens incríveis, construídos com riqueza de detalhes, suas personalidades ficam muito claras e parece que a gente conhece muito bem os dois a medida que as histórias vão sendo contadas.

Mas Ifem é minha preferida, porque ela não é perfeita. Ela é uma protagonista cheia de falhas, que toma decisões com as quais não concordamos, que tem pensamentos duvidosos, que se contradiz, que é chata às vezes, que é humana! Isso é maravilhoso! Ela não é a heroína e não é a vilã, ela é apenas de verdade, e eu achei fascinante. Aliás, todos os personagens são humanos. Ifem, Obinze, tia Uju, a mãe e o pai de Ifem, Dike, Blaine… Todo mundo.

O livro basicamente conta a vida desses dois personagens, e o que mais me tocou, e acho que é o cerne do livro, é a questão da raça. Enquanto nigerianos, e morando na Nigéria, raça não era uma questão. A negritude deles não destoa, não chama atenção, não é um assunto. Mas quando Ifem vai pros EUA, passa a ser uma constante na vida dela.

O que antes não existia, vira rotina, tanto que ela acaba criando um blog, anônimo, sobre questões raciais. No meio do livro estão inseridos alguns textos como se fossem do blog dela, e alguns deles são especialmente fodas. De dar vontade de grifar e ler pra todo mundo (eu li aqui em casa pros roomies alguns pedaços, de tanto que me chamou atenção).

Um deles é chamado de alguma coisa como “O que um não-negro-americano não deve falar a um negro-americano quando se fala de raça”, e é sensacional, porque usa justamente todos aqueles argumentos que nós, brancos, costumamos falar em discussões sobre racismo (exemplos? racismo invertido, que não, não existe, gente). Esse é outro ponto muito legal: a diferença de ser negro africano e negro não-africano, que sinceramente, nunca havia pensado muito sobre.

Eu me coloquei muito como ouvinte na história de Ifemelu, porque muito do que ela relata são coisas pelas quais nunca passei e não passarei, mas era como se eu sentasse e absorvesse tudinho, pra tentar, no meu dia a dia, ter mais noções dos meus privilégios e não querer ter a voz o tempo todo, em todas as questões.

Em todos os capítulos eu enxergava alguma reflexão, alguma coisa pra pensar, mas sem ser uma cartilha, sem ser didático-professorinha-dando-aula, mas ainda assim didático, tipo fácil de entender e absorver. Não só na questão da raça, mas também na questão de ser mulher. E mulher negra. “Americanah” é sim um livro feminista, mas sem ficar teorizando, é tudo na prática, no dia a dia das personagens, elas falando, vivenciando. O que deixa tudo ainda melhor.

“Americanah”, aliás, é a gíria usada por Ifem e os nigerianos quando querem falar de alguém que voltou dos EUA forçando o sotaque americano, como símbolo de status, pra ostentar que tinha ido para o país. E esse é outro ponto que o livro fala: a ostentação de uma temporada longe, como se tornasse aquela pessoa melhor, diferente, mais especial do que os nigerianos que nunca haviam saído do país.

“Ai porque não se encontra um verdadeiro … insira comida típica norteamericana aqui… aqui na Nigéria”, dizem. E não é só isso. É tudo que é melhor ‘no estrangeiro’, e eles, por sorte, fazem parte dessa nata capaz de enxergar quão “atrasada” a Nigéria está (atrasada no sentido do que eles consideram desenvolvimento, os tais privilegiados).

Eu gosto bem dessa parte do livro, porque é numa dessas que mais pude ver quão humanos são os personagens do livro. Ninguém escapa da necessidade de se mostrar superior ou fazer parte de um grupo dito especial.

Apesar de suas 520 páginas, que podem assustar, a escrita de Chimamanda é tão boa que você nem sofre, e é como escrevi ali em cima, parece que faz parte do seu dia a dia, que você está conversando com aqueles personagens, participando da vida deles e adentrando seus pensamentos, entrando em contato com os mais íntimos dos instintos.

Mais do que desejar ou almejar a vida que é contada ali, a gente se identifica. Ou não, e a gente pensa o que faria diferente, mas ao mesmo tempo, nem tudo é sobre nós, mas sobre a experiência de alguém que, no meu caso, passou por algo completamente novo pra mim.

Foram 520 de um mergulho intenso na vida de Ifemelu e Obinze, na cultura deles, na mente deles. E foi incrível. Mergulharia de novo, de olhos fechados.

E vocês, já leram? Gostaram? Contem, contem!
ps: os direitos do livro foram comprados pela Lupita Nyong’o! E vai virar filme <3

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